quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Simi Cabernet Sauvignon 2008

Estando nos Estados Unidos e não provar um cabernet californiano soa como um pecado, não é mesmo? Bom, eu não queria incorrer neste erro e eu tive que provar um cabernet californiano. Como não estou tendo muito tempo e degustado muitos vinhos, resolvi escrever este curto post sobre um vinho que provei. E o escolhido foi este exemplar que vem do Alexander Valley, um lugar marcado por intensa atividade geológica e que possui uma variação muito grande de solos em geral. 

Este vinho foi degustado quase a cegas, com pouquíssima informação sobre ele, mas no final acabou por se mostrar um excelente custo benefício. Não é dos mais tops nem dos mais caros, mas para o dia a dia (levando em conta os preços praticados por aqui) vale muito a pena. Feito num corte com mais de 90% de uvas cabernet sauvignon e envelhecido em carvalho francês e americano, vamos ao vinho.


De cor violácea escura, o vinho se mostrou bem vivo e brilhante, apesar de ser quase impenetrável.

No nariz, aromas de especiarias, frutas negras e algo de mentolado. Lembrança de baunilha podia ser identificado também.

Na boca bom corpo, taninos finos mas presentes e ligeiramente rascantes mas muito redondos e uma acidez interessante. Traz no retrogosto algo de chocolate e frutas negras assim como muito pimentão (assado).

Vinho interessante e bom pro dia a dia, aprovado!

Até o próximo!!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Gouguenheim Malbec 2009

Sei que ando em falta com vocês, meus caros leitores, mas é que estou viajando a trabalho e o tempo disponível para escrever pra vocês é mais escasso. Sei também que vocês querem é material novo, não importa qual a desculpa, mas de qualquer jeito, peço realmente desculpas. Voltando aos vinhos degustadados para o Guia Brasil as Cegas, eis que surge mais um bom malbec argentino para o dia a dia. Evidentemente que não pesquisei o preço nem nada, mas diria que cai bem para o dia a dia. Vamos a ele.


Produzido pela Bodega Gouguenheim em Tupungato, no Vale do Uco em Mendoza, este vinho leva 100% uvas malbec em sua composição. Tem também um período de 4 meses de envelhecimento em carvalho americano e francês para amadurecimento e afinamento. Vale ressaltar que esta região é de uma secura incrível, mas também com vinhedos de altitude, uma combinação que quando bem trabalhada, pode trazer grandes vinhos. Vamos as impressões.

Na taça uma bonita cor violácea, intensa e quase impenetrável. Lágrimas finas, coloridas e rápidas ajudavam a manter a taça deveras tingida durante a degustação.

No nariz o vinho apresentou aromas de flores lembrando violetas, especiarias/temperos em pó e muita fruta escura. Ao fundo da taça ainda podíamos sentir leve achocolatado e algo de tostado. Bem interessante no nariz.

Na boca o vinho apresentou taninos finos, redondos e levemente rascantes. Boa acidez e corpo médio compunham o tripé de sustentação do vinho. Trazia no retrogosto muita furta escura e especiarias em um final de média duração. Algo lácteo pode ser sentido também. 

Vinho honesto que mesmo sem saber o preço, valeu a pena ao menos conhece-lo. Se estiver numa faixa de até 50 reais, creio que seja uma boa compra.

Até o próximo!

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Da onde vem a palavra "sommelier" ?

Mais um capítulo da série sobre curiosidades do mundo vinícola. Hoje, iremos desvendar (ou não) a origem da palavra sommelier, que todos nós enófilos e envolvidos neste universo estamos sempre em contato. Matéria original retirada do site da revista WineSpectator.

Da onde é que a palavra "sommelier" vem? É a partir da palavra francesa "someil", que significa "dormir"? Afinal, o vinho amadurece e "dorme" na adega. O sommelier deve cuidar dela.

Teoria interessante (e romântica), mas parece que "sommelier" vem da do palavra do francês "saumalier", ou "soumelier", que era alguém que estava encarregado do transporte de suprimentos, ou a cargo de animais de carga. Estas palavras foram, provavelmente, alterações da palavra "somier" ou "sauma" que eram os animais de carga em si.

Tão linda como a primeira versão da etimologia, depois de todas as horas organizando minha adega me levaram a crer que a palavra tem mais sentido quando comparamos a pastoreio de animais do que assistir ao sono de alguém!

E vocês, prezados leitores, tem mais alguma teoria sobre a origem da palavra "sommelier" ? Caso tenham, utilizem o espaço de comentários do blog e deixem as suas!

Até o próximo!

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Os vinhos realmente sofrem um "tranco" com a viagem?

Mais uma da série curiosidades sobre o vinho. Todos já nos deparamos com esta questão, ao menos uma vez, seja por experiência própria ou leituras sobre o assunto. Seria realmente necessário colocarmos os vinhos para um período de descanso após traze-los em uma viagem ou mesmo quando compramos on-line ou por telefone e os mesmos são entregues seja pelo modal terrestre, aéreo ou marítimo? Bom, outro dia estava lendo uma revista especializada em sua seção de perguntas e respostas e veja o que eles disseram:

"Consideramos o "Bottle Shock" (às vezes chamado de "bottle sickness") uma preocupação legítima para os vinhos que acabaram de ser engarrafados, ou que apenas viajaram, ou ambos. Há uma abundância de evidências anedóticas e histórias de amantes do vinho que tenham sofrido com um vinho que parecia flácido/mole por um período de tempo após uma viagem. Mais frágeis, os vinhos mais velhos parecem ser mais suscetíveis a esta condição, ao passo que os vinhos mais jovens e mais robustos seriam menos suscetíveis. O que uma viagem pode fazer a um vinho? É quase como o jet lag que judia dos amantes do vinho quando viajam de avião e mudam muito de fuso horário, por exemplo. Realmente não há qualquer evidência científica sobre o assunto, apenas uma teoria de que o movimento e o calor podem destacar todos os elementos diferentes do vinho, como os compostos fenólicos e os compostos químicos e tal. Esperamos que você possa deixar os vinhos que foram recentemente enviados para você descansar por alguns dias ou algumas semanas antes de abri-los.

Como não há maneira científica para medir como um vinho vai se mostrar pra o consumidor ou se houve algum efeito do bottle shock, este é o máximo que podemos te esclarecer. Uma vez que o vinho chega à sua casa, faça o seu melhor para mantê-lo imóvel e nas condições ideais de armazenamento como temperaturas constantes e frias, longe da luz, calor e vibração. Mesmo nos casos mais graves de bottle shock que já vivenciamos, o vinho estava bom duas semanas depois."

Agora deixo para vocês leitores me relatarem suas experiências e opiniões sobre o bottle shock.

Até a próxima!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O que realmente acontece quando você decanta um vinho?

Quando você abre uma garrafa de vinho, duas coisas começam a acontecer: a oxidação e a evaporação. Nenhuma delas entretanto fazem com que os taninos se suavizem por si próprios (pelo menos, não nesse período de tempo). Mas outras coisas podem acontecer para fazer com que o vinho pareça mais harmonioso e seus taninos mais integrados com o restante do vinho.

A primeira coisa que acontece é a evaporação. Depois que um vinho é vertido em um decanter, os componentes altamente voláteis irão se mover para o novo espaço disponível para eles e, em seguida, dissolvem-se na superfície do vinho. Quanto mais você girar ou derramar um vinho mudando a superfície de contato vinho-ar, mais isso pode acontecer. Tipicamente, os compostos voláteis de um vinho tendem a ser as notas menos desejáveis, de modo que a evaporação vai ajudar notas como a de palitos de fósforo queimados ou álcool, por exemplo, a se dissiparem tornando o vinho mais suave e mais atraente.

Quando se trata de vinho, os efeitos da oxidação acontecem durante horas e dias, não segundos ou minutos. Claro, a oxidação pode rapidamente transformar uma maçã cortada para uma tonalidade marrom, mas  não é provável que você venha a sentir todas as alterações efetivas dos taninos do vinho após apenas poucas horas em um decanter. Eu verifiquei com o professor Roger Boulton, da U.C. Davis,  sobre isso e ele diz: "Não há nenhuma evidência que qualquer um dos componentes do tanino sejam alteradas por tal exposição ao oxigênio dissolvido. Os compostos fenólicos menores que reagem muito mais rápido, e podem ser consumidos, mostram uma mudança insignificante na concentração. Nenhuma delas pode explicar as mudanças que são atribuídas ao ar como "suavização dos taninos."

Isso não quer dizer que os taninos não mudem sua estrutura ao longo do tempo. Certamente, durante a vida de um vinho na garrafa, taninos formarão ligações químicas com o oxigênio, serão formados polímeros de tanino e estes deverão cair para fora do líquido, criando sedimentos e fazendo com que a cor de um vinho tenda a ir clareando ou mesmo desapareça. Mas isso leva anos para acontecer.

Eu acho que a maioria das pessoas vai concordar que 2 ou 3 horas em um decanter, como normalmente fazemos quando decantamos um vinho,resultam em um vinho diferente e, normalmente, para melhor. Ambas a oxidação e evaporação parecem suavizar arestas, e elas podem fazer um vinho parecer mais expressivo, mais aromático e melhor integrado. Nós simplesmente não podemos dizer que os taninos se tornam mais suave.

Matéria original retirada do site da WineSpectator, seção "ask dr. vinny"

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Cava Freixenet Vintage Reserva Brut 2007

Esta é minha primeira postagem e experiência com cavas, portanto de antemão já peço desculpas caso eu cometa deslizes, ainda estou aprendendo sobre este tipo de vinho. O cava é um vinho oriundo da região da Catalunha, na Espanha e por regulamentação utiliza uvas locais para sua produção, a saber: Macabeu, Xarel-lo e Parellada. Os vinhos de Cava rosados contém ainda a uva Monastrell. Atualmente ainda são permitidos o uso das uvas internacionais Chardonnay e Pinot Noir, por exemplo. Feito exclusivamente pelo método tradicional de elaboração de espumantes (segunda fermentação em garrafa), este vinho espumante é uma tradição em seu país de origem, não podendo ficar de fora das mesas de refeição, reuniões sociais e outros. Uma curiosidade a cerca do nome deste vinho é que a palavra "cava" significa, em catalão (e espanhol), adega subterrânea (equivalente ao francês "cave").

Falando um pouco da vinícola produtora deste exemplar postado hoje no blog, a Freixenet é uma das maiores, se não a maior, produtora e exportadora espanhola de vinhos cava (e dentre as maiores produtoras mundiais de espumantes). Hoje a empresa já esta sendo dirigida pela terceira geração da família de Pedro e Dolores Sala, e tem obtido notório sucesso em sua empreitada.


Sobre o vinho, vale ressaltar que normalmente espumantes não recebem em seus rótulos menção a safra que tiveram suas uvas colhidas, exceção feita a safras consideradas excepcionais, e me parece que foi o caso desta mesmo não obtendo confirmação desta afirmação. Elaborado com as uvas Xarel-lo e Parellada em proporções iguais, o vinho passa por envelhecimento nas caves de 18 a 24 meses, dependendo da safra. Vamos as impressões.

Visualmente, o vinho apresentou uma cor amarelo palha com reflexos verdeais, muito límpido e brilhante. Borbulhas intensas, abundantes formavam uma linda coroa. Eu posso dizer que ao menos no aspecto visual fora um dos espumantes mais intensos no quesito borbulhas que eu já tive contato, mesmo sendo pouco experiente no assunto. 

No nariz o vinho trouxe aromas de frutas de polpa branca, toques cítricos e lembranças de fermento e panificação. 

Na boca o vinho tinha corpo médio, muita acidez e formava um colchão muito gostoso de borbulhas, estourando lentamente no meio do palato. Trazia no retrogosto muita fruta (maçã verde era o mais fácil de se tirar daqui) e toques de tosta. Final de média duração.

Um vinho extremamente refrescante, ajudou a aplacar o calorão do final de semana em sampa. Eu recomendo.

Até o próximo!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Confraria, frutos do mar, vinhos e amigos!

Este final de semana tivemos mais um encontro da Confraria Pane Vinum Et Caseus e foi mais uma noite digna de rememorar por um bom tempo. Entre muita boa comida, bons vinhos e amizades, é sempre bom participar destas reuniões. Sem dizer que sempre somos muito mais do que bem recebidos pelos anfitriões, o que por si só já vale a visita.


Já na chegada fomos recepcionados com dois vinhos rosés interessantíssimos, com propostas bem diferentes e de regiões bem diferentes: um da Ilha da Córsega e um do calorão lá dos patamares do Douro, em Portugal. O primeiro era o Terraza D’Isula Sciaccarellu-Gris de Cinsault, se mostrou mais austero e com toques minerais, mais leve e com uma sensação mais tânica enquanto que o segundo, o Rosé Caves Santa Marta Duro 2008, muito mais macio, aromático, muita fruta porém com um pouco menos de acidez, nada que faça entretanto o vinho ser pior ou melhor. Dois vinhos interessantes e que servem como bons vinhos para aperitivo, recepcionando seus convidados ou para comidas mais leves.


Logo depois a coisa começou a ficar um pouco mais sério e a ala portuguesa da confraria (sim, a confraria conta com uma legião de lusitanos) começou a mostrar seus dotes mais uma vez. Se utilizando de um "equipamento"vindo diretamente da terrinha (que mais uma vez eu esqueci de fotografar) começaram a preparam um chouriço autenticamente português, flambado em álcool. Por fora ligeiramente tostadinho e por dentro uma bela e tenra porção de carnes de caça deliciosa. Foi aqui que começaram a servir alguns vinhos tintos interessantíssimos e começamos a assistir um embate Alentejo x Douro. De um lado um vinhaço da Herdade do Esporão, o Esporão Private Selection Tinto 2007, feito com uvas Alicante Bouschet e Aragonês, o vinho se mostrava carnudo, volumoso, com compota de frutas, floral, tudo muito exuberante e final longo e do outro o Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo Grande Reserva 2007, feito com touriga nacional e o restante de vinhas velhas, trazendo aromas que remetem mais ao velho mundo, couro, baú, corpo médio, boa acidez com um grande final. E fomos assim, curtindo o chouriço e os vinhos enquanto aguardávamos as pessoas que ainda não haviam chegado. Eu confesso que preferi o Douro, mas a maioria foi de Alentejo. De qualquer maneira, dois baita vinhos só pra começar a noite.




Algum tempo depois, todos já haviam chegado e o jantar iria ser servido. Aqui realmente subimos de patamar. Para o jantar tínhamos de entrada mousse de salmão e cuscuz de camarão. Ambos incrivelmente preparados e saborosíssimos. O mousse com uma consistência incrível e o salmão podia ser sentido a cada mordida, já o cuscuz muito saboroso, camarões em profusão com uma leve sensação de pimenta dando alma pro prato. Já o prato principal era composto de camarão na moranga com arroz branco, muito cremoso e fresco, com catupiri dando um toque mais do que especial e o leve dulçor da moranga contrapondo com os sabores fortes do prato. Para acompanhar os pratos foram escolhidos dois vinhos: os Chablis 1er cru Fourchaume 2006 Château de Maligny e o Chablis 1er cru Monteé de Tonnerre 2006 Château de Maligny, ambos do Domaine Jean Durup et Fils e feitos como manda a tradição/legislação da Borgonha, exclusivamente com uvas chardonnay. Confesso que minha pouca experiência com Chablis e 1er Crus além do nível alcoólico que já me encontrava a esta altura impediam de uma análise mais precisa, mas ambos os vinhos tinham uma vivacidade ainda interessante pela idade, já apresentando coloração tendendo ao dourado e traziam aromas de frutas brancas e algo de mineral, lembrando giz e talco. Além disso eram bem gordinhos e preenchiam a boca ajudando a limpar as papilas gustativas entre uma garfada e outra. Eu sinceramente adorei ambos os vinhos.


Para fechar a noite viria a sobremesa, ah a sobremesa, esta não poderia faltar. Um belíssimo e delicioso mousse de chocolate com nozes, incrivelmente tenro e com sabores inenarráveis aqui. Para acompanhar ainda teríamos uma linda surpresa: um belíssimo Porto LBV Taylor's 2005 servido em copinhos de chocolate, simplesmente atingimos os céus!!!


E assim fechamos mais um belo encontro da confraria com louvor. Agradeço a todos pela receptividade e aguardo ansiosamente os próximos encontros.

Até o próximo!

domingo, 5 de fevereiro de 2012

JP Azeitão Tinto 2010

Noite dessas em que não havia muito o que se fazer eu estava com muita vontade de tomar um vinhozinho simples só pra curtir o tempo passar. E eu me deparei com este vinho, que apesar de até então ser desconhecido, era da gigante Bacalhôa Vinhos de Portugal, que entre outros faz os ícones Palácio da Bacalhoa e o Quinta da Bacalhoa, sendo que o primeiro já foi comentado aqui (relembre o post). 

JP é a linha de entrada da vinícola, com a proposta de consumo rápido e jovem, o vinho é um corte de 60% Castelão, 30% Aragonez e 10% Syrah. Aliás, para quem ainda não associou o nome, Castelão é a famosa uva  conhecida também por Periquita, e dá nome a um dos mais famosos vinhos portugas em terras brasilis. Mas voltando ao nosso motivo do post, o vinho também não passa por madeira.


Na taça o vinho apresentou uma cor violácea bem escura, intensa e brilhante. Lágrimas finas, levemente coloridas e rápidas compunham o conjunto visual.

No nariz o vinho apresentou muita fruta, lembrando ameixas pretas, uvas passas e algo de goiaba. Um vinho bem explosivo, um pouco diferente do que eu esperava mas muito agradável.

Na boca o vinho mostrou taninos finos, quase imperceptíveis, acidez um pouco baixa mas sem desagradar e corpo de leve para médio. Trouxe frutas de novo no retrogosto, e manteve-se assim num final de curto para médio. 

Um vinho simples, sem defeitos e que deve agradar até as pessoas que não são consumidoras costumeiras de vinho, pois tem aquela sensação de dulçor durante a degustação. Eu recomendo.

Até o próximo!

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A tentativa de retratação de Chapoutier

Como vocês perceberam em meu último post, em uma entrevista de Chapoutier para a revista inglesa Decanter, gerou-se uma enorme polêmica com os termos utilizados por ele para se referir a viticultura dita natural. Pois não demorou muito e o próprio Chapoutier, em seu perfil no Facebook tratou de esclarecer a situação e colocar panos quentes. Trago abaixo a nota divulgada e deixo para vocês, leitores, o julgamento.

"Na última edição da revista Decanter Magazine, John Livingston mudou um pouco as minhas palavras e eu gostaria de corrigir esta simplificação feita. Eu disse que o princípio da fermentação natural é a fermentação do álcool seguido pela fermentação acética. Este é o princípio de decomposição (a teoria da regressão da planta para o mineral). Na fermentação alcoólica, as leveduras transformam o açúcar em álcool e bactérias acéticas transformam o álcool em ácido etanóico, também chamado de acético: é vinagre. A arte do enólogo é parar este processo natural até a metade, antes da fermentação acética. E isto é, por definição, não natural. Sem qualquer  intervenção do ser humano, um vinho natural é por definição vinagre. Eu queria fazer a correção desta situação, porque eu sempre tentei trabalhar em um ambiente o mais natural possível. Qualquer pessoa familiarizada com os nossos vinhos e com a maneira que eu trabalho teria certamente entendido o que eu quis dizer. Finalmente essa discussão pode provar um ponto importante: o "vinho natural" não é talvez a definição mais apropriada e que devemos considerar o uso de outra em seu lugar."

E ai leitor, o que você acha desta polêmica?

Até o próximo!

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Chapoutier destila seu veneno sobre a linha enólogica natural

Na recente edição da revista Decanter, existe uma entrevista com o famoso enólogo francês Michel Chapoutier, onde sem quaisquer papas na lingua ou receio de atingir colegas de produção, ele desdenha e contesta a linha de produção de vinhos naturais e expõe de maneira dura qual sua opinião sobre o assunto. Por não ser profundo conhecedor do assunto, transcrevo parte da entrevista e matéria da revista, deixando aos leitores que enriqueçam a discussão e se possível, esclareçam os pontos levantados por Chapoutier.

"O renomado produtor do Rhone, Michel Chapoutier, contribuiu para o debate a cerca do vinho natural, chamando os enólogos naturais de hippies fora de época que fazem vinhos com defeitos. Entrevistado na edição atual da Decanter, Chapoutier diz que a prática de vinificação natural - ou seja, sem utilizar o dióxido de enxofre para estabilizar os vinhos - é um golpe. "É uma enganação. É lixo. É como fazer vinagre, e vinagre ruim. Como alguém pode permitir leveduras tóxicas a se desenvolverem de modo a crescerem e habitarem o vinho? Além disso, o produtor, que também faz vinho na Austrália, Portugal e Alsácia, considera aqueles que seguem tais práticas, "hippies de outro mundo".

"É extraordinário que as pessoas defendam produtos com defeitos, alegando que no passado os produtores estavam fazendo vinhos com defeitos, de modo que é bom, ou natural. Os vinhos velhos tinham defeitos porque as pessoas não tinham as ferramentas e meios para não fazer vinhos livres de defeitos. "

A vinificação natural tem uma longa história de atração de pontos de vista ferozmente opostos. Em uma coluna recente na Decanter, Andrew Jefford sugeriu que, embora o método poderia produzir uma "paisagem de aroma e sabor" inimagináveis​, também beira o "charlatanismo". Nenhum enólogo, ele argumentou, "deve cruzar os braços ... e olhar com retidão para o teto enquanto os seus vinhos tendem a se deteriorar por pura negligência."

Em outro artigo em uma edição anterior de Decanter , Isabelle Legeron, uma "evangelista" para os vinhos naturais e fundadora da Feira do Vinho Natural, apontou como"bizarra" nós questionarmos as credenciais naturais da nossa comida mas sermos felizes bebendo vinho que é efetivamente processado. "Nós celebramos o não pasteurizado, o fedorento Epoisses por sua singularidade, e suco de maçã fresca para sua turbidez e ainda insistimos em vinho que é estéril e consistente", diz ela."

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Afinal, vinho nacional tem ou não qualidade?

Dia desses me deparei com a coluna do Lauro Jardim para o Radar On Line da Veja e vi que existe uma espécie de discussão em andamento onde o mote principal é a qualidade, ou falta de qualidade, dos vinhos nacionais. Lendo alguns dos comentários dos leitores sobre a coluna e levando em conta minha pequena experiência sobre vinho, resolvi rabiscar umas linhas aqui no blog e gostaria de contar com a ajuda de vocês, meus leitores, para discutirmos de maneira saudável o assunto.

Começo então fazendo uma mea culpa, e já explico o por que. Até novembro do ano passado eu tinha muito preconceito ainda com os vinhos nacionais. Apesar de já ter entrado em contato com uma ou outra coisa boa e já tendo ouvido e muito sobre a qualidade de nossos espumantes, a questão era de que eu ainda não tinha provado consistência de qualidade com preços razoáveis nos nossos vinhos. Tá certo que minha rodagem nem é tão grande assim, mas era o que eu "tinha pra hoje", se é que vocês me entendem. E isso começou a mudar então quando eu decidi fazer uma viagem para conhecer algumas vinícolas em seu principal habitat, o Vale dos Vinhedos no Rio Grande do Sul. Hoje tenho uma visão um pouco diferente e acho que o Brasil tem sim uma produção de qualidade (até reconhecida fora) mas ainda falta alguma coisa para o reconhecimento interno. Nos próximos parágrafos, vou expor o que eu penso sobre.


Uma das principais novidades pra mim na época (e não faz muito tempo, meros 3/4 meses aproximadamente) e um dos motivos motrizes para este ganho de qualidade foi verificar o quanto de tecnologia atual tem se empregado nas vinícolas nacionais, até mesmo nas de pequeno porte (um exemplo disso é a Vinícola Almaúnica) mostrando que investimentos no quesito de produção são efetivamente feitos. Outros aspectos que contribuem também é que a maneira de condução das videiras praticamente migrou da latada para a espaldeira, e que não existem (ou praticamente não existem) mais vinhedos conduzidos desta forma arcaica e que não se encaixa no clima úmido da região além do adensamento das plantações e diminuição da quantidade de frutos por planta que também se mostraram efetivos por lá. Outras técnicas como chaptalização (em discussões para ser proibida/regulada no Brasil) e uso de chips de madeira tem sido feitas de maneira e esconder alguns defeitos e, a meu ver, quando bem utilizados (sem abusos) são bem vindos. Finalmente o uso de tanques de inox com temperatura controlada na fermentação e uso de madeira francesa e americana em doses consideradas "decentes" tem feito a diferença quando pensamos também nas técnicas enológicas mais modernas.


Por outro lado, dois aspectos principais ainda me fazem questionar o vinho nacional: o preço e os canais de distribuição dentro do próprio país. Veja, eu entendo um pouco do quão pesada é a carga tributária do país (até por que eu sinto na pele, em outras circunstâncias) ou o quanto é difícil e custoso todo o processo produtivo dos vinhos nacionais mas eu ainda enxergo que, para se tornarem definitivamente competitivos no mercado, é necessário que o valor de venda no mercado interno seja menor. E incluo nesta discussão a substituição tributária, custo logístico, pontos de venda, etc. No tocante aos canais de distribuição, eu entrei em contato com vinícolas lá no sul (peguem o caso da Angheben, por exemplo) que possui vinhos muito bacanas e a preços interessantes mas que dificilmente se encontram em São Paulo. E vejam, estou falando da maior cidade do país, concentração do poder aquisitivo e patati patacolá. Imaginem agora um enófilo que mora mais pro interior do país, como faria para encontrar estes vinhos e sequer entrar em contato com nossa viticultura de qualidade?

Com tudo isso, acho que mais do que discutirmos a qualidade de nossos vinhos, talvez deveríamos discutir competitividade, incentivos a pequenos produtores, mudança de tributação (bebida alcoólica x alimento) e uma série de outros fatores que, em conjunto com a qualidade dos mesmos, só fariam o consumo per capita do brasileiro aumentar mais e mais. E você, querido leitor do blog, qual seria sua opinião sobre o assunto?

Até o próximo!