Wednesday, May 29, 2013

O que faz as uvas tão adequadas para a produção de vinhos?

Já cansamos de ver por ai, sejam em empórios, botecos e afins, bebidas pretensamente chamadas de vinho feitas a partir de várias frutas, não é mesmo? Mas na verdade essas bebidas não são nem de longe parecidas com vinho nem tão pouco seguem os mesmos processos efetuados com as uvas na produção dos vinhos. Então o que torna as uvas tão especiais neste processo?

Na verdade o grande diferencial das uvas em relação a outras frutas é principalmente o equilíbrio existente entre os açúcares naturais da fruta, a acidez presente em sua polpa e também a estrutura de taninos presentes principalmente em sua casca e cabo. As outras frutas podem ser muito ácidas ou muito doces e sem acidez suficientes. Quando vinho é feito com base em outras frutas, a tendência é a adição de açúcar ou água (ou ambos) para criar artificialmente este equilíbrio.

Outro fator que pesa em favor das uvas é que elas necessitam de menos auxílio quando falamos de fermentação, uma vez que elas conseguem converter naturalmente seus açúcares em álcool, enquanto outras frutas não tem nutrientes suficientes e/ou leveduras em sua composição para fazer este processo acontecer facilmente.

Diante dos fatos, sempre que você ver aquela garrafa suspeita em algum lugar, dizendo que é vinho feito a partir de qualquer outra fruta que não seja uva, desconfie. Pode ser que seja gostoso, mas não é vinho.

Até o próximo!

Tuesday, May 28, 2013

Heideboden Cuvée Reserve Qualitätswein

Confesso que não sou grande conhecedor dos vinhos austríacos e que deveria me esforçar e estudar um pouco mais sobre. Contribui para meu "desleixo" a falta de opções viáveis em nosso mercado, salvo uma ou outra importadora. Enfim, nada justifica mas a questão é que hoje iremos conversar um pouco sobre um vinho vindo da região de Burgenland, na Áustria, e tentarmos juntos desenvolver o assunto.


A Áustria tem uma cultura vitivinicultora muito semelhante a da Alemanha, até pela proximidade e história comuns que ambos os países compartilharam ao longo dos tempos. Pelo que pude apurar, embora as exportações tem notado uma tendência de aumento gradativo nos últimos anos, a maior parte da produção do país é consumido no mercado interno. Outro dado interessante é que a produção de uvas e vinhos brancos ainda é maioria no país, numa proporção de 70/30 em relação às uvas e vinhos tintos, mas esta proporção tem apresentado uma tendência a mudança em direção aos tintos, mesmo que de forma tímida. 

O vinho de hoje vem da região de Burgenland,  aparentemente a segunda maior região produtora de vinho do país. Com solos propícios, boa insolação e variação de temperaturas e níveis de umidade vindos principalmente de grandes lagos na região, Burgenland é o local onde se cultiva em larga escala a uva tinta nativa Blauer Zweigelt, que juntamente com a Cabernet Sauvignon faz parte do corte deste vinho (embora não tenha conseguido determinar as proporções) e também largamente conhecido por produzir vinhos doces botritizados.

Sobre o produtor, confesso que estou um pouco confuso. O vinho aparentemente é distribuído por uma empresa vinícola alemã chamada Saffer Wine, que além de produzir vinhos de marca própria trabalha também como negociante e distribuidor de vinhos oriundos da Itália, Espanha e Áustria. O produtor por sua vez é a Vinícola Münzenrieder, localizada dentro do Parque Nacional Neusiedler. Como dito anteriormente, o vinho é um corte de uma uva nativa com uma uva internacional, sem proporções conhecidas e passa por madeira, apesar de não ter o período divulgado. Sem maiores delongas, vamos as impressões.

Na taça uma bonita cor violácea de média intensidade, bom brilho e certa transparência. Lágrimas finas, rápidas e coloridas ajudavam a tingir a taça.

No nariz aromas de frutos vermelhos e negros, toques de pimenta e lembrança de madeira. Tudo bem integrado.

Na boca o vinho tinha corpo médio, boa acidez e taninos finos e redondos. Retrogosto confirma frutas e pimenta do nariz com final de média duração trazendo ainda lembrança de baunilha.

Um bom vinho, bem feito, sem defeitos e/ou arestas. Não sei se pode ser encontrado por aqui mas foi trazido por mim em viagem a Alemanha. Vale a pena conhecer. Gostaria de poder encontra-lo por aqui. Eu recomendo.

Até o próximo!

Monday, May 27, 2013

Chianti Leonardo 2010

Em mais uma orgia enogastronômica de finais de semana, resolvemos almoçar em uma cantina que já estamos acostumados e gostamos muito, principalmente pelo preço justo pago pelas refeições. Ainda sob o efeito "Itália" em minha cabeça, resolvi arriscar em mais um vinho italiano, afinal harmonizações regionais são sempre muito bacanas e normalmente tiro e queda. Vamos ver qual o resultado no post de hoje?


A Cantina Leonardo da Vinci (produtora do vinho em questão) é uma espécie de cooperativa, que nasceu da união de cerca de 30 fazendeiros que tomaram esta decisão buscando enfrentar de forma mais racional e conjunta os problemas que passavam nos anos 60. A partir daí o que se viu foi o crescimento da cooperativa e a busca pela qualidade e foco em vinhos de mais alta gama. A cooperativa possui diversos vinhedos na região da Toscana sendo que a sede operacional da mesma se encontra nos arredores de Vinci, onde o famoso inventor italiano Leonardo da Vinci nasceu (dai o nome em sua homenagem). Sobre o vinho, um corte de 85% de Sangiovese seguido por 10% de Merlot e o restante de outras uvas tintas não descritas pelo produtor. Não passa por madeira, segundo ficha técnica, envelhecendo apenas em tanques com temperatura controlada até março/abril do ano seguinte a colheita. Vamos as impressões.

Na taça uma bonita cor rubi violácea de média intensidade, com bom brilho e alguma transparência. Lágrimas finas, rápidas e levemente coloridas compunham também o aspecto visual. 

No nariz aromas de frutas vermelhas, notadamente cerejas e toques de especiarias, bem discretos e leves.

E o vinho vinha bem, até que na boca, a surpresa. Taninos macios e finos: confirma. Corpo de leve para médio: confirma. Mas e a acidez? Cade a acidez? Praticamente inexistente. Uma das características mais marcantes do vinhos de Chianti simplesmente estava muito abaixo do esperado. Não sei se em função da garrafa, safra, armazenamento, enfim, confesso que me decepcionei um pouco. Retrogosto essencialmente frutado, num final de média duração.

Não foi o esperado, não agradou muito nem a mim nem a minha esposa mas pretendo revisitá-lo para tirar a prova. Ainda acho que havia algo de errado com a garrafa, mas como não consegui assertivamente chegar a uma conclusão, fiquei por isso mesmo desta vez.

Até o próximo!

Friday, May 24, 2013

Wine Gourmet Show: Meus pitacos

Estive presente na data de ontem no evento Wine Gourmet Show, evento este feito em conjunto pelas importadoras Casa Flora e Porto a Porto. Com o crescimento do portfólio de ambas, acompanhando as tendências de um mercado em ascensão, as importadoras tomaram uma importante decisão em 2011: criaram um evento exclusivo para que pudessem mostrar para imprensa, clientes e amigos o que tinham adicionado de melhor em seu portfólio até ali. E nesta segunda edição, o evento aumentou em tamanho e qualidade. De qualquer maneira, vinhos e produtores excelentes desfilaram seus produtos por lá. Evidentemente que em um evento desta magnitude, precisamos selecionar o que vamos provar e por isso o apanhado que irei postar por aqui não corresponde a nenhuma verdade absoluta, apenas alguns destaques individuais que pude levantar.


O primeiro grande destaque entretanto vai para a organização, que com a criação de uma sala exclusiva para imprensa e formadores de opinião (fui incluído nesta lista a convite da assessoria de imprensa da Nieto Senetiner através da pessoa da Thaise Cleto, a quem agradeço enormemente a oportunidade) facilitou demais a nossa vida, fazendo com que calmamente pudéssemos provar os vinhos, sentarmos e tomarmos nossas notas além de podermos discutir com amigos, produtores e representantes sobre os vinhos lá expostos.


O segundo destaque vem no gancho do primeiro, foi a oportunidade de poder conversar com o enólogo Roberto Gonzalez e com o engenheiro agrônomo Tomas Hughes, ambos da Nieto Senetiner, onde além de uma degustação guiada de seus vinhos, pudemos conversar sobre como as uvas são plantadas, colhidas, como os vinhos são feitos, como o blend é escolhido e assim por diante. Pra quem gosta de aprender, um  prato cheio. E além disso, a simpatia com que os dois nos receberam e conversaram conosco foi ímpar! Mais uma vez agradeço a Thaise a oportunidade.

Agora passamos aos vinhos. Como disse anteriormente, por ser apenas um apanhado com destaques pessoais, posso injustamente ter deixado de fora alguma coisa boa. Mas com tantos vinhos para provar, espero estar perdoado. Para começar meus destaques, irei dividir os vinhos em 4 categorias: espumantes, brancos, tintos e fortificados. Fico na esperança de que o post fique menos cansativo e mais interessante de se ler.


Começando pelos espumantes, o primeiro grande destaque é o Cadus Brut Nature, um blend argentino de Pinot Noir e Malbec feito pela Nieto Senetiner, com boa complexidade e acidez, cor salmão bem pálida e um delicioso final ao lados das cavas Gramona (III Lustros Gran Reserva Brut Nature e Celler Batlle Gran Reserva Brut) que embora tenham a mesma composição ( 70 % Xarel·lo, 30% Macabeo) são bem diferentes entre si, desde a cor até o corpo, o frescor e tempo em cave, mas que valem e muito conhecer. Pra finalizar, não poderia deixar de falar da já conhecida Champagne Deutz Rosé 2006, espetacularmente fresca, saborosa, complexa e extremamente suave e aveludada na boca que só faz querer mais e mais.


Passando aos vinhos brancos, meus destaques vem basicamente da frança: o Herrenweg Riesling 2009 do Domaine Barmes Buecher com seus aromas empireumáticos, florais e minerais aliados a um extremo frescor fazem com que cada gole chame o outro de maneira natural (este também é homenagem a minha amiga blogueira Evelyn Fligeri que não pode comparecer ao evento); o Blanc Fumé de Pouilly 2008 do Domaine Didier Dagueneau, muito mineral e aspargo num vinho encorpado e delicioso que me fez pensar em um dia de mais calor com frutos do mar no prato e pra finalizar o Clos Floridene 2007, um vinho feito pelo Denis Dubourdieu em Graves, e que trazia algo de plástico, animal e floral em seu vinho, tornando-o complexo e instigante para conhecer a fundo, com mais tempo.




Já no tocante aos tintos (minha declarada preferência) fui um pouco mais eclético e destaquei vinhos de lugares diferentes. Começando pela Argentina, os vinhos da Nieto Senetiner (Don Nicanor Barrel Select e Cadus Gran Vin) se mostraram muito bacanas, ainda mais podendo discutir com os produtores todo o processo. Por exemplo, o Don Nicanor tem o Barrel Select em seu nome pois só pós o envelhecimento do vinho em barrica é que o vinho final para o blend é selecionado, e nem todas as barricas entram neste jogo. O vinho é um malbec puro sangue, potente, encorpado, frutas vermelhas, talco, muito bacana ao passo que o Cadus é um corte entre Malbec, Cabernet Sauvignon e Bonarda, um vinho mais perfumado, mais aveludado e pronto pra consumo. Da Borgonha destaco o Chauvot-Labaume Mercurey Premier Cru Clos L'Eveque do Chateau Commarin que trazia no nariz cogumelos, toques animais e na boca muito frescor e taninos aveludados e finos, incrivelmente delicioso. Finalizando com a Itália, um Amarone impressionante com suas frutas passas, quase licoroso, final longevo em boca, estou falando do Bertani Amarone Clássico 2003, imperdível.


Fechando o passeio vínico, falaremos agora dos vinhos fortificados, que eram muitos e muitíssimos interessantes e por isso já peço perdão pelos equívocos que possa vir a cometer. Lá de Portugal dois belos vinhos do Porto de encher os olhos e a boca: o Porto Messias 30 Anos, envelhecido sem ser velho, frutos critalizados, amendoas, lindo e o Porto Messias Colheita 1994, deliciosamente incrível; da França o que eu poderia chamar de ouro líquido: o Château de Rayne Vigneau Sauternes 2009, mousse de maracujá no nariz, toques cítricos e enpireumáticos, denso quase como um licor e deliciosamente refrescante num final longo na boca e pra finalizar, vindo diretamente da Hungria, o Tokaji Classic Aszú 6 puttonyos 1999, deliciosamente aromático trazendo casca de laranja e damasco seco, muito encorpado e com acidez ligeiramente abaixo do que eu esperaria, mas mesmo assim um licor dos deuses.



E pra quem pensa que isso foi pouco, existiam muitas outras opções para todos os gostos, mas num Wine Show desse impossível de manter o "ritmo". Além disso, muitas comidinhas gourmet estavam também disponíveis, mas eu destaco duas pelas quais sou apaixonado: queijo da serra da estrela (diretamente de Portugal) e jamón pata negra (diretamente da Espanha). Quanta tentação!


E assim deixo vocês, caríssimos leitores, com a sensação de que este foi um dos eventos mais interessantes e recheados que eu tive oportunidade de visitar. No aguardo de outras oportunidades.

Até o próximo!

Wednesday, May 22, 2013

Bonacchi Chianti Gentilesco DOCG 2011

Sábado passado bateu uma saudade danada da viagem pra Itália que fiz a pouco tempo, na ocasião de minha lua de mel, e resolvemos que seria a oportunidade para comermos uma pizza acompanhada de um dos tipos de vinho mais famosos da Itália. Não, essas primeiras linhas apesar de não serem verdadeiras também se encaixariam muito bem na situação. Acontece que sábado sai com minha esposa e minha enteada para comermos uma pizza e na hora de escolher o vinho, não tive dúvidas e optei por um vinho italiano para ser o fiel escudeiro da comida.


A Cantina Bonacchi colhe as uvas para este vinho e faz seu vinho em Montalbano, bem no coração da área demarcada como Chianti (não a clássica, diga-se de passagem). O vinho é um corte de Sangiovese (85%) e Canaiolo (15%), uvas permitidas pela legislação. Possui teor alcoólico de 12,5%. Vamos as impressões.

Na taça uma bonita cor rubi violácea de média intensidade, com bastante brilho e alguma transparência. Lágrimas finas, rápidas e levemente coloridas completam o conjunto visual.

No nariz o vinho se mostrou extremamente frutado, como normalmente se apresentam os Chiantis. 

Na boca uma deliciosa acidez, corpo médio e taninos aveludados. Retrogosto confirma fruta pujante e tem um final de média duração.

Um bom vinho, que realmente me trouxe saudades da viagem e que me fez querer pensar em uma volta a Itália e a uma visita a região de Chianti, que desta vez ficou de fora do roteiro. Escortou com bravura uma pizza metade quatro queijos e metade calabresa coberta com mussarela e alecrim. Eu recomendo.

Até o próximo!