segunda-feira, 17 de março de 2014

Vinícola Bella Quinta & São Roque: recuperando a identidade do vinho paulista!

Eu tenho a idéia de que muitos, ao simplesmente lerem o título deste post provavelmente irão desistir de ler seu conteúdo ou irão até desdenhar do que pode vir abaixo. Entretanto, recomendo aos que chegaram até aqui, que esperem um pouco e não irão se arrepender. As notícias que trago diretamente "do campo" são extremamente gratificantes e encorajadoras paras aqueles que gostam de vinho ou mesmo que um dia pensam em trabalhar com isso. Tive a oportunidade de participar no dia de ontem de uma "wine class" na Vinícola Bella Quinta, em São Roque (interior de São Paulo), que dentre outros assuntos, trouxe um sopro de esperança para a vitivinicultura paulista em geral. A "wine class" foi conduzida por Gustavo de Camargo Borges (proprietário da vinícola) e Fábio Lenk (enólogo e Coordenador do Curso de Vitivinicultura do Instituto Federal de São Paulo).

Interior da vinícola
A história do vinho em São Paulo se confunde com a história de São Roque, uma vez que a cidade já chegou a contar com mais de 100 vinícolas em sua época de fartura. É claro que quando falamos em vinho por lá, e até no Brasil de uma forma geral, muito vinho de garrafão (uvas não viníferas) está inserido nestes números, o que não descaracteriza no entanto o trabalho deste vinhateiros desde meados dos anos 20 / 30. E a Vinícola Bella Quinta não foge destas características. Chegando a quarta geração da família e em mais uma bem sucedida associação a vinícolas do sul do país (mais especificamente em Flores da Cunha) começam então em 2005 a fazer vinhos finos com uvas Cabernet Sauvigon. Mas o projeto é mais ousado e Gustavo e as pessoas que lá trabalham já fazem experimentos com uvas viníferas em solo paulista.

Gustavo e Fábio em sua introdução a vinícola e ao vinho
Fomos recebidos na sede da vinícola para um gostoso café da manhã com produtos artesanais, feitos ali pela região, como pães e queijos, entre outros, além do gostoso suco de uva feito pela vinícola. Após abastecermos os tanques, era hora de começar nossa imersão no vinho.


Após um breve apresentação da vinícola e da história da família, conduzida por Gustavo, fomos então apresentados ao Fábio, que conduziria o restante da "aula" de vinificação. Fábio é, como muitos brasileiros, cosmopolita e já viveu em diversas regiões do Brasil e fora dele. Cursou enologia em Petrolina e desde então, apesar de experiência industrial, enveredou pela área acadêmica. E era exatamente aqui que surgia a primeira notícia bacana, ao menos pra mim: São Roque ganhou um curso superior de vitivinicultura e enologia pelo Instituto Federal de São Paulo! Vejam só, agora quem quiser se enveredar e começar a aprender sobre como fazer vinhos, técnicas e tudo que circunda a profissão poderá estudar aqui em São Paulo, sem precisar se mudar para Bento Gonçalves ou Petrolina (duas pontas do Brasil). O curso é com duração de 3 anos e dá a formação de tecnólogo, que pode perfeitamente assinar pela vinícola. Ou seja, a evolução do mercado de vinhos e produtivo passa sempre pela base, que é a educação, e começamos a disponibilizar a ferramenta. Eu simplesmente achei fantástica esta informação.

Um pouco mais da wine class na prática
Seguindo nossa "wine class", Fábio também comentou sobre projetos a serem desenvolvidos principalmente em regiões como São Paulo com relação ao plantio de uvas viníferas, tais como inversão de ciclo da videira, estudo de porta enxertos e variedades que melhor se adaptam ao "terroir" paulista, enfim, um resgate e/ou criação de uma identidade para o vinho por aqui cultivado e produzido! E Fábio tem boas razões para acreditar no sucesso destes experimentos, uma vez que sua bagagem lhe mostra isso, parte dela adquirida no sertão nordestino onde teoricamente vinho seria algo impossível tempos atrás. Isso não é excelente? Eu achei esta informação muito bacana e por isso resolvi compartilhar com vocês. Afinal hoje em dia com modernas técnicas de enologia se pode produzir vinhos de qualidade fora das regiões (latitudes) consideradas excelentes. Veja, não estou dizendo aqui que o vinho virá a ser melhor ou pior que outros tantos por aqui mas sim que o vinho terá sua qualidade, simples assim.


Fábio continuou nos ensinando sobre as etapas de produção do vinho, desde a vinha até a garrafa, muito didaticamente e pacientemente com todas perguntas (em excelente professor diga-se de passagem), mostrando uma cuba de fermentação (laboratorial) e explicando detalhadamente cada etapa do processo. Foi ai que entrou o fator diversão do dia: todos que acompanhavam a aula agora entrariam no processo de fabricação e participariam do mesmo, mais especificamente na etapa do desengace das uvas. E lá fomos nós, caixa após caixa vendo as uvas se separarem de seus "cabinhos" e o mosto sendo transportado para os tanques de cimento (lagares) onde ali fermentaria e daria origem a nossa cultuada bebida de Baco. Aliás aqui outra curiosidade: muitas vinícolas após utilizarem grandes tanques de madeira e mais atualmente o inox estavam voltando um pouco na história e utilizando tanques de cimento nesta etapa do processo uma vez que o próprio cimento faz o controle da temperatura e não deixa que esta suba muito durante a fermentação. Daqui ainda teríamos mais algumas explicações sobre como as leveduras atuavam, como era feito o processo de preparação e inserção das leveduras no mosto e assim por diante.

Engaço devidamente separado
Continuando nossa aula, e daqui pra frente, degustamos o vinho em algumas etapas do processo e partiríamos para a degustação dos vinhos propriamente ditos e um belo almoço preparado pelo pessoal da vinícola. Mas como o post ficou um pouco comprido, isso será assunto para a segunda parte dessa nossa wine class. Espero que estejam gostando do que viram até aqui.

E até o próximo!

6 comentários:

  1. Quem sabe não abrem um curso noturno, num campus em São Paulo... ai a gente mergulha de cabeça neste aprendizado!
    :)

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    1. Ai sim seria incrível hein Jane? Imagina uma classe da confraria?

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  2. Respostas
    1. Obrigado Evelyn, um dia eu chego lá, assim como vc.

      Beijos

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  3. Victor,

    Bastante interessante seu post. A inversão do ciclo da videira está sendo bem estudada no Brasil e acredito que em breve teremos alguns resultados animadores.
    Legal saber que em São Roque, uma cidade tão tradicional na produção de vinhos, tem gente querendo focar em vinhos finos e de qualidade.

    Ansioso para ler seu post sobre a degustação!

    Abraço e bons vinhos,
    Jorge Alonso

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    1. Jorge,

      Obrigado pela visita e pelas palavras gentis.

      Eu gosto muito de ouvir que o vinho brasileiro e a vitivinicultura do país evolui a passos largos, se não fossem impostos e burocracias burras, acho que competiríamos de maneira menos desigual com nossos hermanos ao menos.

      O post sobre a degustação já saiu, caso não tenha lido segue o link: http://www.balaiodovictor.com/2014/03/wine-class-bella-quinta-parte-final.html

      Espero te-lo sempre por aqui.

      Abraço!

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