sexta-feira, 1 de julho de 2011

Se você estivesse ensinando novatos no mundo do vinho, o que deveria dizer a eles?

Mais uma vez Matt Kramer, em seu editorial "Drinking out loud" para o web site da revista Wine Spectator, me surpreende e escreve um artigo muito interessante sobre os novatos no mundo do vinho e sua percepção sobre seu (nosso) comportamento. Eu não canso de ler e compartilhar seus textos dado os excelentes argumentos que ele usa e a linguagem muito simples e objetiva, algo que me cativa muito num mundo já bastante complexo que é este o dos vinhos. Abaixo coloco a tradução livre do texto e se quiserem, sugiro que leiam o texto original e os demais no site da revista americana.

Sempre que me pedem para falar na frente de um grupo, especialmente em um lugar como Cingapura, onde o vinho passou apenas agora a se tornar objeto de interesse comum, eu sempre ressalto que ser americano já é uma vantgem.

Esse comentário enigmático sempre recebe olhares desconfiados. Ser um americano, eu explico, é um trunfo pois sabemos como é ser um novato no mundo do vinho. Sabemos o que é não saber.

Digo isso aqui porque tem havido algum ruido sobre os asiáticos grosseiros que supostamente adicionam refrigerante ao seus Château Lafite Rothschild que custaram o olho da cara. Sim, provavelmente alguém fez alguma coisa do gênero e o boato se espalhou. Ou talvez seja apenas uma lenda urbana. A realidade, como a que eu pude constatar em minhas recentes viagens ao Japão, China e Cingapura nos últimos cinco meses, é algo mais parecido com a que nós americanos tinhamos a apenas algumas décadas atrás.

Até a ascensão da cultura do vinho no Japão, e agora China e Cingapura, nós americanos éramos a maior tribo novata em todo o mundo do vinho. A maioria de nós não crescemos com o vinho. Meus pais nunca beberam vinho. Na verdade, eles não bebiam nada alcoólico, exceto um cocktail ocasional em uma festa para ser "sociável." Aposto qualquer coisa que o mesmo poderia ser dito para a maioria de seus pais, pelo menos se você já tem idade suficiente para estar no parquinho com seus filhos.

O ponto chave é: a maioria dos amantes de vinho americanos são quase tão novos para este mundo como os amantes asiáticos o são. Eu não sei sobre você, mas me lembro vividamente da complexidade do vinho: todo "dialeto" dos rótulos (em francês invariavelmente); a arbitrariedade aparente de preços; o esnobismo, a humilhação de enfrentar uma grande carta de vinhos em um restaurante sempre voltada para vinhos com preços exorbitantes. Você se lembra de tudo isso? Aposto que você se lembra.

Então, quando eu estava em um jantar em Cingapura recentemente, na frente de um grupo de novatos do vinho (a maioria de qualquer maneira, ou pelo menos era o que aparentava), eu tentei transmitir o que eu achava que novatos neste mundo deveriam saber. Eu não coloquei dessa maneira, eles se incomodariam. Ninguém gosta de pensar de si mesmo como um "novato". Isto criaria uma desnecessária, e condescendente separação. Afinal, todo mundo começa como um novato. Mesmo você. Até mesmo eu.

Aqui está o que eu tentei dizer-lhes:

• A grande mentira de vinho é "Se você gosta, então é bom." Cada evangelisador do mundo do vinho gosta de contar aos novatos este absurdo, para deixá-los felizes e seguros. É infantilizador. O que você gosta é apenas isso: o que você gosta. Você deve beber o que quiser, sem dúvida. Mas supor que seu gosto faça automaticamente com que qualquer coisa seja "boa" é o pior tipo de arrogância ignorante que pode existir. E aqueles que lhe dão tal "absolvição" são apenas e tão somente paternalistas contigo, por mais bem intencionadas que sejam suas intenções.

• Se você quer saber o que é "bom", você vai ter que fazer comparações. Seja fazê-lo no ambiente estruturado de uma aula de degustação de vinhos ou apenas em casa com um par de garrafas do mesmo tipo de vinho, você tem que fazer comparações a fim de conhecer melhor a partir do pior.

Várias vezes, os professores de degustação de vinhos fazem uma grande jogada com tudo isto, enfatizando todos os tipos de técnicas a cerca de taninos, acidez e do vocabulário "correto". Isso tudo é útil, com certeza. Mas o que importa, a única coisa que realmente importa é a sua atitude mental. Assim quando você, como um bebedor de vinho interessado, iniciar mentalmente comparando um vinho com outro, você estará no seu caminho.

Minha experiência em dar numerosas aulas de vinho é que quando apresentados dois vinhos do mesmo tipo com diferenças óbvias de qualidade , os degustadores na maioria das vezes vai preferir o vinho que é realmente o melhor. O que os novatos não sabem (e como eles poderiam saber?) é o por que desta preferência pelo vinho de maior qualidade.

• Deduza dois pontos a partir de qualquer pontuação acima de 90 e adicione três pontos a qualquer pontuação acima de 80. Isso sempre gera risadas. E com certeza é mais ou menos esta a intenção. Mas não é um conselho ruim de qualquer maneira.

Todo mundo sabe que só a pontuação de 90 ou mais pontos têm poder no mercado. Então uma enorme quantidade de vinhos realmente bons, que valem a pena, encontram-se num limbo de, digamos, 88 pontos. Como o Banco Central, as pessoas que dão notas tem que se preocupar com a inflação. Então eles tentam segurar a onda neste range de 10 preciosos pontos entre 90 e 100 pontos.


Conscientemente ou não, uma enorme quantidade de vinhos muito bons não recebem a bênção de uma pontuação de 90 ou mais pontos. Inevitavelmente as percepções são distorcidas. A vida é injusta.

Portanto, meu conselho para os novatos é para abafar o alarde feito por aqueles vinhos que recebem 90 pontos, deduzindo dois pontos desta pontuação e aumentando a potência da pontuação dos vinhos que se encontram na faixa dos 80 pontos, somando-lhes três pontos. Voilà! Este delicioso Bourgogne tinto que recebeu "apenas" 88 pontos de repente se torna um irresistível beleza de 91 pontos, que provavelmente tem um preço convidativo mais baixo também.

Claro, isso é um jogo, como escolher a terceira garrafa mais barata  em uma carta de vinhos. Mas não vejo muita perda para baixo (os vinhos de 90 ponto ainda estão no páreo), e há um upgrade para uma gama muito grande de vinhos considerados bons negócios hoje.

• Menor normalmente é melhor, mas nem sempre. Nós todos sabemos que os vinhos realmente bons tem limites. Mas às vezes esses limites são surpreendentemente grandes. Produtores de vinho em todo lugar sabem que há um preconceito contra
grandes vloumes de produção, não importando a qualidade. É por isso que Dom Pérignon, que é um Champagne fantástico, nunca revela seus números (consideráveis) de produção. Seu concorrente, Moët & Chandon, sabe muito bem que se o mundo soubesse o quanto de Dom Pérignon é feito a cada ano, as pessoas (errôneamente) teriam uma má impressão sobre ele.

Isto posto, menor produção de vinhos oferecem, no mínimo, a possibilidade de uma maior individualidade. Isso é algo que novatos em todos os lugares descobrem por si próprios e precisam saber. E se há alguma diferença entre novatos no mundo do vinho hoje e os de algumas décadas atrás, é que os novatos de hoje são capazes de aprender esta lição, mais cedo e mais facilmente do que qualquer outros recém-chegados na história do vinho.

Aqui está um exemplo de como os novatos de hoje estão muito melhores. Singapura é a casa de um comerciante ambicioso chamado Caves Artisan, especializado em transporte aéreo de vinhos de pequenos produtores artesanais a esta implacavelmente quente e úmida cidade do ar-condicionado (Singapura é logo a norte do equador). Quando me encontrei com o co-proprietário e gerente geral Henry Hariyono, 40 anos, ele abriu um champanhe único de um dos melhores produtores franceses que eu já me deparei, cuja produção é extremamente limitada: a Ulysse Collin Extra Brut.

Uma  Champagne 100% Chardonnay com um aroma intenso de  poeira giz , Ulysse Collin é fermentado em barrica, não tem licor de expedição aparente (a doçura do montão de açúcar adicionado na maioria dos Champagnes) e ostentava uma data precisa de disgorgement (10 de outubro de 2010, na garrafa em minhas mãos). Isto é o que um ótimo vinho, verdadeiramente individual, deve ser. Que lição!

Não me importo de dizer que quando eu era um novato no mundo do vinho, há 35 anos, não tive essa oportunidade de aprendizado de uma lição tão importante, até mesmo vital, sobre a qualidade do vinho e sua originalidade.

Quando perguntei ao Sr. Hariyono sobre seus clientes, eu esperava que ele me disesse que eram expatriados, como Singapura é um mix de americanos, britânicos, australianos e outros, fazendo quantidades impressionantes de dinheiro em seu vibrante setor financeiro. Sua resposta me surpreendeu
.

"Nenhum dos meus clientes é expatriado", disse ele. "Tudo que os expats parecem fazer é reclamar sobre como os vinhos são caros aqui em comparação com seus países de origem. Eles não querem pagar, embora os preços não são necessariamente tão mais altos para muitos vinhos considerados top. Meus clientes são malaios, indonésios e chineses."

E eles estão comprando esta delícia, profundamente individual, chamada Ulysse Collin Extra Brut? Mr. Hariyono riu. "As pessoas nos seus 50 anos são mais orientadas para o prestígio", disse ele. "Eles querem as marcas que os seus amigos vão reconhecer. No entanto, os jovens profissionais têm mais o que você chamaria de 'estilo de vida.' Eles estão em toda parte. Eles foram educados no exterior. Eles estão abertos e disponíveis. Eu já tenho cerca de 20 produtores diferentes de champanhes. E acredite, eles estão vendendo."

Soa familiar? Lugares como Singapura - educado, rico, ambicioso - são o futuro do bom vinho no século 21, assim como os Estados Unidos foi no final do século 20.

Claro, eles são na sua maioria novatos ainda vinhos em Singapura e em outras partes da Ásia. Mas não por muito tempo. Não com esses tipos de oportunidades. Então o que você diria a eles?

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